A Cultura do Cancelamento

A Cultura do Cancelamento

A Cultura do Cancelamento

Cancelamento: uma conclusão que se torna uma sentença

Se você está inserido no mundo virtual – e provavelmente está – já deve ter visto situações de pessoas sendo ‘canceladas’ e, assim, excluídas de algum contexto social. 

A obra “Admirável Mundo Novo”, do escritor Aldous Huxley, retrata muito bem esta realidade, onde as pessoas são programadas para nascerem dentro de um padrão, caso contrário, são marginalizadas pela sociedade. 

Fora da ficção, nota-se, muitas vezes, que a sociedade cria inúmeras resistências com indivíduos que pensam e se posicionam de forma ‘diferente’, excluindo-os do convívio, colocando-os como fora do ‘seu mundo ideal’.  

Tal cenário retrata a ‘cultura do cancelamento’, que simboliza excluir o indivíduo ‘cancelado’ da sociedade, ou seja, o mesmo deixa de existir na vida das pessoas que o cancelaram (é excluído de um grupo específico, um meio social ou do trabalho a que pertencia). 

É importante ressaltar que a cultura do cancelamento não está cancelando um erro ou um problema, ela está cancelando um ‘Ser’ humano. A consequência disso, são os diversos prejuízos a nível sociocultural, como a disseminação de discursos de ódio, polarização, violência, crimes de preconceito, senso de inadequação, exclusão e rejeição, podendo gerar inúmeros distúrbios de saúde a nível físico, mental e emocional. 

A prática do cancelamento é um reflexo da falta de empatia e do falso moralismo da sociedade em que vivemos, intensificados e potencializados com a chegada da vida virtual e suas redes sociais e da possibilidade do anonimato em colocar opiniões sem se identificar. 

Nessa lógica, a cultura do cancelamento, certamente, não abre espaço para uma troca de opiniões, pois, ao julgar as ações do próximo, não há consideração pela sua defesa e argumentos. Há apenas uma busca desenfreada por ‘fazer justiça’, que gera indivíduos intolerantes, com incapacidade de dialogar, e com uma represália desmedida, que cancela não só a fala do julgado, como também suas relações, trabalho e vida em geral. 

Por outro lado, este julgamento conclusivo e hostil, na maioria das vezes, começa pelo próprio ‘cancelado’, que com posturas e discursos agressivos e preconceituosos, voltados a homofobia, racismo, violência e etc, gera um impacto social devastador. 

Sem dúvida, a liberdade de expressão é direito de todos. Mas também até onde pode ser expressa? Sim, precisamos sustentar a justiça social, a igualdade e direitos igualitários para todos, porém é importante reavaliarmos o ‘como’ fazemos isso. 

Liberdade, Igualdade, Fraternidade, sim, sempre!
Mas de que forma?

Cancelamento, um pré-julgamento que sentencia.

O cancelamento é um julgamento cruel que cria sentenças devastadoras.

É notável que o cancelamento praticado por determinados sujeitos e/ou grupos, se trata de uma ‘justificativa’ para impor normas, aparentemente corretas, na sociedade. Porém, essas justificativas contradizem seu discurso no momento em que apenas julgam atos e falas, tidos como incorretos, incoerentes e sem a possibilidade de dialogar.  

Ou seja, não conduzem com a possibilidade de criar um novo ‘olhar’ , de uma mudança, apenas instigam um certo controle disciplinar e sustentam um modelo enrijecido sobre determinada situação. É necessário desmantelar as relações de poder estabelecidas no meio social e validar as críticas abertas ao debate positivo e ao diálogo. 

Como consequência, a cultura do cancelamento dificulta o diálogo e impossibilita uma mudança de opinião e atitude. A antropóloga e cientista social Rosana Pinheiro afirma que “cancelar é sempre negativo. O problema não é a crítica, mas sim quando isso escorrega para uma negação do sujeito, do que a pessoa tem a dizer e do que faz”.  

A Cultura do Cancelamento

É possível mudar a cultura de cancelamento?

É necessário que haja uma maior compreensão pela sociedade dos impactos negativos dessa tendência. A questão da cultura do cancelamento no Brasil e também no mundo, é um fenômeno negativo e, por conseguinte, necessita ser combatido e atenuado.  

Para isso, cabe à mídia, com seu potencial influenciador, através de meios educativos, culturais e sociais, criar campanhas específicas que abordem as consequências da cultura do cancelamento, a fim de que os ‘canceladores’ e a sociedade em geral, compreendam que ela é desnecessária, e que a mudança deve partir do diálogo, da reflexão e de uma escuta compassiva.  

É fundamental desenvolver medidas urgentes para atenuar os danos causados pela cultura do cancelamento. E isso deve começar pelos responsáveis das grandes redes sociais, como Twitter, Facebook e Instagram, com a criação de campanhas massivas que exponham os malefícios causados pelo ato de cancelar.  

Essas campanhas devem ser realizadas trazendo exemplos reais para que os usuários reflitam cuidadosamente, antes de desenvolver ataques agressivos nas redes sociais e, desta forma, menos vidas sejam ‘massacradas’ por cancelamentos.  Só assim, por meio de medidas que conscientizem, poderemos ter uma sociedade mais consciente e saudável. 

Perguntinhas importantes:

  • Você consegue desenvolver uma visão e escuta empática sobre temas desconfortáveis? 
  • Você pratica a compaixão?
  • Já cancelou alguém sem conhecer profundamente a versão da pessoa?  
  • Você já se sentiu cancelado/excluído? E qual foi a sua sensação?

A Cultura do Cancelamento

As tristes consequências do cancelamento

A cultura de ‘cancelamento’ torna-se um grande fator de risco para a saúde física, mental e emocional. Desde somatizações físicas até depressão, pânico, transtornos de ansiedade, distúrbios de sono, escapismos, perdas profissionais, financeiras, sociais e relacionais. São diversas as ‘sequelas’ do sujeito que foi cancelado.  

Quando um indivíduo sofre o cancelamento, todas as pessoas ao seu redor, como familiares e amigos, podem ser afetadas também, gerando um cancelamento coletivo. Muitos tornam-se alvos de ‘haters’ que não separam o ‘cancelado’ das pessoas próximas a ele. 

Os comentários maldosos e raivosos, em sua maioria, são infindáveis e repetitivos, ignorando o bom senso e o respeito pelo indivíduo, perdendo os limites da boa comunicação e resultando numa grande tortura psicológica para todos os envolvidos. 

A esse respeito, a cientista social Nataly Neri diz que “a cultura de cancelamento é complicada, unilateral, generalizante e endeusadora, ao mesmo tempo em que é desumanizadora. Ela não aceita aprendizados, não aceita erros.” 

Não estamos aqui eximindo a responsabilidade do indivíduo que se expressa de uma forma hostil, preconceituosa e julgadora também. Muitas vezes, as intenções do cancelamento são boas, porque colocam um limite claro na expressão e comportamento do indivíduo cancelado.  

A prática do cancelamento tem um viés que busca por justiça social, igualdade e liberdade. Porém, com a força das redes sociais, o movimento pode proliferar-se – em massa – rapidamente, o que acaba gerando uma visão superficial e distorcida da situação. Cria-se, a partir daí, uma ilusão de que para resolver o problema, simplesmente, deleta-se alguém da sociedade, sem ao menos ter um diálogo e uma melhor compreensão da situação.  

Veja também A Cultura do Scroll.

Até onde podemos ter a liberdade de expressão?

 

É essencial para a democracia que a voz nunca seja calada. O que é completamente diferente de um discurso que incite a prática de crime e faça uso de palavras de ódio ou proponha rupturas institucionais.
Augusto de Arruda Botelho

 

Fonte:
https://mauriciobastos.art.br/a-cultura-do-cancelamento/

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